Setembro de 2006. O início da viagem. As experiências agridoces, os hábitos estranhos, a paleta de idiomas. A cidade, estranhamente feia; as regras, absurdas. Ainda assim, a expectativa imensa.
Volvidos quase dois anos desde a partida final, ainda lá volto frequentemente quando fecho os olhos. Saudade, talvez… uma saudade de tudo o que ali vivi e do que ficou por viver. Das palavras por dizer, das relações pela metade, descontinuadas pelas distâncias que o tempo se encarregou de alargar. Mentalmente reconstruo cada rua, cada praça que fez parte da minha vida durante aquele ano. Reconstruo cada um de vós, que a memória atraiçoa e vai apagando pouco a pouco. Dói quando coisas que se tornaram tão queridas, parte de nós durante um período tão breve e tão longo, passam pela força da vida para o baú das recordações. O desejo de voltar é compensado pela convicção da desilusão. As ruas terão a mesma cor, a paisagem não terá mudado, mas mudei eu, mudou a minha percepção. E mudaram todos aqueles que já não encontrarei, certamente. Permaneceram vestígios reais, pedaços que se foram fortalecendo e que mantiveram o seu curso, linhas que se foram encontrando e alimentando o desejo dos reencontros.

Relembro aquela primeira noite. A ansiedade, o desgosto das expectativas aparentemente não correspondidas. Sobretudo, a cumplicidade nascida logo ali das dificuldades e das vontades comuns. Deslocados, desconhecidos, diferentes. Éramos tudo isso, e iguais na vontade da partilha do passado e do futuro que levávamos no bolso. À mesa da esplanada, numa noite estranhamente quente, até a fealdade daquela rua, que tantas vezes notámos depois, se escondia de nós. Tudo era novo e queríamos apreender tudo na alma, bebíamos o luar como um presente único.
Não houve, talvez, um único dia fácil. Os desafios iam surgindo, pedindo para ser conquistados. E a recompensa espreitava ao virar de cada esquina. As despedidas, jamais fáceis, tornaram-se parte do quotidiano daqueles que viviam uma vida emprestada por lotes de tempo pré-determinados. Esse tempo já passou, resta o sonho que, por vezes, me transporta e me faz recuar. O sonho que, como já dizia Gedeão, “comanda a vida”…










0 Respostas to “Memórias agridoces”