Numa rádio local do Porto, programa de fado. Discos pedidos. A música como pretexto para ter com quem falar. O animador da dita, neste caso. Artistas que escapam ao mainstream das “novas vozes do fado” e que, para o grosso da minha geração, passam para o baú poeirento da memória, inacessível cinco segundos volvidos da sua apresentação. Participantes que ignoram as preces do animador e não se calam. Beijinhos para o marido que “faz anos amanhã”, para os sobrinhos que estão no «istrangeiro» (muito, muito longe do alcance da frequência); “porque gosto muito”, “e o Sr. sabe que”, e muitos muitos “e”.
Em três quartos de hora de viagem, com a companhia de uma rádio “popular” e muitas participações do dito “povo” é difícil resistir à tentação de tirar conclusões (possivelmente precipitadas) sobre o tecido social que temos. É leviano também, mas não deixo de pensar o quão tragicamente cómicos somos. Quão inchados ficamos com as nossas “realizações” como povo, com a “igualdade de oportunidades”, com os brinquedos em forma de computador que se andam a distribuir pelas escolas e tanta tanta areia para os olhos, mais uma vez, do dito “povo”. Enquanto escuto com atenção esses ouvintes/participantes não posso deixar de pensar que estes nem saberão que há vida para além do seu salário/pensão miserável, do trabalho das 8h às 17h, do quintal e da enxada. Não se importam porque não sabem dos absurdos de quem nos (des)governa desde tempos imemoriais, de quem se aproveita do seu raciocínio trôpego para tirar vantagem. Nós sabemos e não nos importamos, desde que estejamos também sentados à mesa do «privilégio legal». Como me disse alguém há uns dias atrás, a respeito das reformas milionárias que temos no nosso país e que co-existem com a miséria que grassa por aí: “eu não quero saber se os direitos são justos ou não, eu quero é ter direito também, quando chegar lá”…
Somos este país. Somos este povo. O lobo e o cordeiro debaixo do mesmo tecto.











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