Cruzam-se olhares e vivências. Misturam-se idiomas, cores e cheiros. Um espaço de e para a arte, de estímulo dos sentidos e das emoções. É assim a Espontânea, que desde o Verão de 2006 oferece a Vila Real uma alternativa cultural aos lugares comuns do quotidiano.

Na Espontânea nada é deixado ao acaso. Desde a meia-luz, que nos chega de candeeiros que são também pequenas peças de arte e de velas cuidadosamente espalhadas pela casa, à música, tudo é pensado com o fim de proporcionar um ambiente acolhedor, diferente, quase familiar. Divagando pelos espaços, quase tudo é possível ver e fazer. Quem procura um atmosfera mais animada, tem à disposição um bar, onde o objectivo não é o lucro, mas sim a elevação da alma dos associados, ou uma mesa de matraquilhos, num espaço de acesso ao bar, que permite saudáveis competições entre amigos e desconhecidos. Para aqueles que preferem uma ambiência mais serena, existe a “sala dos meninos” onde o som de uma música suave convida à conversa sem necessidade de elevar a voz, ao desafio de jogos de tabuleiro ou mesmo ler, enquanto se saboreia um bom vinho ou chá. O ambiente único proporcionado pela aura singular e quase mística do Palacete de São Pedro, casa carregada de história e histórias, habitada em tempos pela “Ferreirinha”, quebra barreiras e leva a que, quase forçosa e inconscientemente, se crie uma cumplicidade indelével entre aqueles que frequentam a colectividade.

A associação cultural e recreativa, sedeada no primeiro e segundo andar do Palacete de São Pedro, junto aos bombeiros da Cruz Verde, em Vila Real, surgiu quando um conjunto de amigos, alguns deles músicos que não tinham onde ensaiar, decidiram procurar um espaço que pudessem partilhar. Pedro Pires Cabral, sócio número um, encontrou o lugar ideal, que, pela sua dimensão, conduziu à ideia de fazer uma associação. Aberta à expressão artística de todos, possui salas destinadas a exposições e à realização de eventos como concertos, peças de teatro e workshops. Aos sócios que assim o desejem, estão dedicados espaços para que possam treinar a sua arte. “É uma associação que tenta criar alguma oferta cultural na margem direita do Corgo”, foi nestas palavras que Fernando Gouveia, sócio desde Setembro de 2006 e actual membro da mesa da assembleia-geral, definiu a colectividade. Por imperativos legais, a entrada na associação só é permitida aos sócios. O estatuto é, no entanto, oferecido a todos os que o desejem, sendo exigido somente o pagamento da quota, quase simbólica, de um euro por mês. O espaço é frequentado por uma massa heterogénea de pessoas com um único objectivo em comum, a descontracção oferecida pelo seu ambiente singular. A maioria dos sócios é formada por pessoas ligadas ao mundo académico e das artes, situação “inevitável numa cidade como Vila Real”. Os estudantes “Erasmus” são sócios por vezes maioritários, preenchendo e colorindo com a variedade de línguas e vivências a paleta humana que compõe a Espontânea.

Sendo muito mais do que um bar, procura ter “sempre algo mais para além do convívio”. Exemplo de como o objectivo tem sido concretizado, é a festa de alunos “Erasmus”, realizada no final de Novembro do ano passado. A iniciativa procurou ter disponíveis bebidas dos diferentes países de onde estes estudantes são originários e foi-lhes também foi possível apresentar, com recurso a projecções multimédia, as tradições e as histórias dos respectivos países. “Estava um ambiente muito interessante, no bar estava o pessoal todo louco, e chegávamos aqui [à sala dos meninos] com pessoas muito calmas, com o seu copo de vinho, a ver projecções sobre a Hungria ou Turquia, entre outros”, recordou Fernando Gouveia. Na associação há lugar para todos, chegando a gerar-se quase um ambiente “um pouco esquizofrénico”, com pessoas em ambientes completamente distintos. Desde a sua fundação, só é permitido fumar à luz das velas e do luar, nos espaços exteriores cuidadosamente pensados em função do conforto e bem-estar dos seus membros.

Existindo como associação desde Março de 2006, foi objecto de obras para estar preparada como espaço de convívio, tendo aberto aos sócios em Junho do mesmo ano. Todo o mobiliário, livros e jogos foi oferecido ou emprestado pelos sócios naquilo que pode ser considerada “uma criação colectiva”. Como oferta cultural, procura ter concertos regulares, assim como sessões de cinema “alternativo” e documental. Exposições são frequentes. Até ao passado dia 9 de Fevereiro esteve patente uma exposição da artista plástica Raquel Costa, intitulada Rouge est la Coleur du Sang. No passado dia 15, foi inaugurada uma exposição de fotografia e poesia intitulada “A Imagem Soou a Palavra” de éCARDOSO & Momé.
Para Março, estão previstos dois concertos e um festival de artes performativas, que vai contar com a participação de pequenas companhias de teatro. No final de Janeiro, uma projecção de filmes mudos, acompanhada por uma banda sonora interpretada ao vivo, recuperou a aura do cinema do início do século XX. A cultura é um imperativo quase moral para a Espontânea. A participação nas actividades desenvolvidas ou é inteiramente grátis, ou a receita das mesmas reverte na sua totalidade a favor dos artistas. Inicialmente, o espaço abria aos sócios quatro dias por semana, de quinta-feira a domingo. Passou entretanto a abrir somente às sextas-feiras, sábados e vésperas de feriado, uma vez que todo o trabalho é realizado por sócios voluntários que, durante o dia, se dedicam às suas actividades profissionais. A eventual passagem de associação a bar não é alvo de ponderação, uma vez que “muita da piada disto é ser feito por nós na base da carolice”, confessou Fernando Gouveia enquanto saboreava um chá acabado de fazer. “Os sócios sabem que, quem está atrás do bar, não está a receber nada para o servir, e isto gera uma familiaridade e um ambiente descontraído diferente”. As motivações desta dedicação variam, mas a principal é o perpetuar da colectividade. “Se ninguém vier cá abrir a porta, se não houver pessoas para pôr música, para garantir que se reabastece o bar, que se contactam músicos, que se tenta trazer teatro, que se garanta que as contas são pagas, isto fecha”.

Um olhar diferente
Agnieszka Loranty “Aga” veio da Polónia e está a estudar em Vila Real desde o início do ano lectivo. Encontrou na Espontânea o lugar ideal para os dias “em que a vontade de sair de casa é pouca e apetece um lugar sem música alta, onde se pode sentar e beber algo, calmamente, com os amigos”. No olhar da jovem “Erasmus”, é um lugar onde se pode relaxar e conversar, e, no “quarto do silêncio”, até mesmo ler. “Este não é um lugar comercial, como os outros. Aqui podemo-nos sentir em casa, pois quando entramos aqui, sentimos que estamos a entrar em casa de alguém”.
A Espontânea continuará de portas abertas a todos quantos queiram fazer parte da crescente família das artes e da cultura, num espaço de partilha e de criação mútuas, todos os fins-de-semana, em Vila Real.
* Publicado em Fevereiro de 2008 no Mensageiro Notícias










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