27
Nov
08

Espelho

O coração dispara. Uma ansiedade violenta, mas não estranha, enfraquece-me as mãos. São duas da madrugada, levanto-me. Escrevo ao computador, no meu bloco seria difícil. Será da playlist? Demasiado frenética? Depressiva? Do lixo que tenho lido, ouvido, vivido? Não sei. Gosto de adormecer ao som das melodias, mas hoje só empolam ainda mais as trevas de dentro.
Enquanto escrevo o coração desacelera, a respiração volta lentamente ao normal. A escrita tem o condão de encerrar em si as mais violentas emoções; os meus demónios exorcizo-os na tela do computador ou no papel. Inebrio-me com as imagens que vão passando velozmente pela mente e não descubro qual de vós me roubou o sono. Cruzo os braços procurando conter-me um pouco mais, mas o desconforto imenso que vem de mim não suaviza, castiga-me. E a escrita, de paliativo vai passando a espelho. Não me socorre mais, transforma-se num autómato de ideias e emoções mal reflectidas. Antigamente, a insónia era provocada pela torrente de pensamentos, preocupações do dia-a-dia. Hoje, é provocada por um mal-estar que não compreendo, sobre o qual não tenho qualquer controle. É um coração acelerado, uma falta de ar ansiosa. O espelho questiona-me sobre o que faço. A escrita não flúi, nem me acaricia. Pelo contrário, olha-me cinicamente nos olhos e ri-se da pequenez da minha vontade. Fujo-lhe de volta para os lençóis. Amanhã será mais terna, talvez.


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