Em jornalismo cruzam-se interesses, verdades e visões díspares de uma mesma realidade, todas elas “verdadeiras”, quanto é possível a uma aproximação da Verdade sê-lo. No tratamento informativo do discurso político jogam diversos factores, desde o conhecimento por parte do jornalista em relação à realidade retratada, à distorção ideológica dos factos. A quantidade e o à vontade da (des)informação que circula, nomeadamente através da Internet possibilita, por um lado, um acesso mais completo a esta, no entanto sem a qualidade muitas vezes desejável. Qual o papel do jornalista no discurso político? Onde fica a Verdade no meio disto tudo? Este é um tema mais do que debatido, no entanto, longe de ser encerrado.
A dicotomia media – discurso político, é composta por duas forças que interagem, mantendo interesses distintos. Por um lado, o actor político procura afirmar a sua “verdade”, seleccionada criteriosamente em função de um objectivo político. Por outro lado o jornalista, que procura esclarecer o discurso político em função dos factos, está muitas vezes sujeito a pressões. Sejam os deadlines, que por vezes não permitem uma análise cuidada dos factos, sejam as influências internas e externas do meio em que se insere (cujos directores estão, particularmente nos meios regionais, envolvidos em grupos políticos ou de pressão), são diversos os factores que condicionam o trabalho jornalístico. Um trabalho isento e de qualidade será tanto melhor quanto maior a independência do jornalista e da empresa de comunicação face a agentes externos. Torna-se difícil, sobretudo nos meios locais, manter a distância necessária face ao poder e aos actores públicos, quando nos cruzamos diariamente com eles. O perigo das emoções e dos receios do jornalista influenciarem negativamente o seu trabalho é tanto maior quanto menor a dimensão do seu meio, o que não significa que este não exista nas grandes redacções, perigo agravado pela precariedade laboral em que vivem cada vez mais profissionais.
Outro factor sensível no respeitante à qualidade e à “verdade” da informação é a isenção do jornalista e a transparência dos seus códigos (tendências políticas, opinião e experiências). Não é difícil nos média tratar opinião como sendo informação e a questão complica-se quando questionamos a isenção. Se existe, será desejável? O jornalista não é um mero veículo de informação, é codificador desta. Quem o lê ou ouve, não estará mais bem informado quanto mais transparentes forem os seus códigos? Será possível ser absolutamente isento? Absoluta isenção não implicará ser o jornalista um mero canal de transmissão de factos e ideias alheias? Onde fica a contextualização destes para a sua boa interpretação? Mas contextualização implica sempre o uso da óptica do jornalista, o filtro segundo o qual interpreta a informação. Posto isto posso dizer que, em última análise, a Isenção não existe. Isto não significa que o jornalista seja tendencioso, mas a sua interpretação dos factos é sua, é a forma como viveu a Verdade, como a sentiu e interpretou. E pode julgar ser isento ao transmiti-la assim mesmo. Acredito como positivo que o jornalista seja não só um mero espectador do debate, mas um participante deste, que facilite a quem o lê/ouve interpretar a informação que transmite conhecendo os seus filtros. E a Verdade surgirá, não da “isenção” jornalística, mas da transparência deste.










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