24
Set
08

Vila Real (re)visitada

Centro histórico, centro de histórias

Permanecendo uma cidade de reduzida dimensão, Vila Real foi-se expandindo e perdendo população para a sua periferia nos últimos anos. O centro histórico, marcado por zonas como a Rua Direita, é hoje quase exclusivamente comercial. A Voz do Marão faz nesta reportagem o seu retrato, junto de quem ainda hoje ali defende a memória de tempos cada vez mais esquecidos.

Percorrendo as ruas heterogéneas do centro histórico de Vila Real, perdemo-nos com facilidade por entre a variedade de cor que nos chega das tradicionais lojas de artesanato, de antigas pastelarias e cafés, tabacarias, floristas, barbearias, relojoarias e quiosques. Locais como a Rua dos Combatentes da Grande Guerra (Rua Direita), o Jardim da Carreira, a Rua 31 de Janeiro ou a Avenida Carvalho Araújo são alguns dos locais onde se pode encontrar aquilo que de mais pitoresco e característico há na cidade e que se transformam em local de eleição para um passeio de fim de tarde.

Tempos idos

Saindo do Centro Cultural de Vila Real, onde estão instalados os estúdios da Rádio Voz do Marão, a Universidade Sénior e o Museu Etnográfico, a primeira paragem é na esplanada do Café da Vila, na Rua 31 de Janeiro, que nos permite uma agradável visão do Largo de São Pedro. Segue-se o número 23 da perpendicular Rua Isabel de Carvalho, uma antiga latoaria “com mais de cem anos”, nas palavras do proprietário Joaquim Alves dos Santos que, apesar de não poder precisar a antiguidade da mesma, frisou que já ali trabalha “há 56 anos”. Na loja, conhecida como “Casa Arnaldo”, que herdou o nome de um antigo proprietário, podemos encontrar desde peças artesanais de latoaria ao tradicional barro preto de Vila Real, assim como algumas peças características de outros locais do País, como o Galo de Barcelos. Rui Santos, filho do proprietário e vencedor do primeiro prémio da exposição de latoaria da FIL em 2005, explica que “as pessoas continuam a vir aqui”, sobretudo turistas, apesar de se sentir no negócio o efeito da generalização do uso do plástico. A arte dos dois latoeiros é exibida ali mesmo, na pequena oficina dentro da loja, a lembrar, à vista de todos, os tempos em que esta não era somente uma actividade pitoresca de fabrico de «lembranças», mas um trabalho que dava resposta às necessidades do quotidiano.

Descendo a 31 de Janeiro, encontramos a já conhecida Casa Mota. O proprietário da loja de brinquedos, com a simpatia de quem há trinta e um anos está habituado a lidar com crianças e seus pais, admite sentir o peso da concorrência das grandes superfícies. Ainda assim, há quem continue a preferir o comércio tradicional quando chega o momento de agraciar os mais novos. “As pessoas continuam a vir aqui, não como queríamos, mas esperamos que ainda venham melhores dias”.

No Largo da Capela Nova vemos um pouco de tudo, desde sapatarias a relojoarias, barbearias e casas de pronto-a-vestir. Continuando em frente, dobramos uma esquina e entramos na Rua Heitor Correia de Matos aonde, num pequeno tasco pertinentemente intitulado de “Buraquinho”, se pode tomar uma refeição económica ou um cálice de vinho. “Tudo menos café”, nas palavras do proprietário, Jorge Eira. Também aqui se vão sentindo os efeitos da crise, sendo a casa menos procurada do que antigamente, “talvez não pela concorrência, mas pela questão monetária”.

Recuando um pouco, seguimos pela Rua Serpa Pinto. Ali, mais lojas de pronto-a-vestir, uma tabacaria, cafés e tascos continuam a colorir a zona, à sombra do pelourinho de Vila Real. Na Pastelaria Gomes, que desde 1925 estimula paladares na cidade, é possível tomar um café ou um lanche adocicado pela meia-luz, mobiliário e caracterização típicas do início do século passado. De estômago e alma saciados, podemos seguir pela Avenida Carvalho Araújo, aonde o herói da Primeira Grande Guerra permanece imponente, em frente ao Tribunal de Vila Real.

Da antiguidade para a modernidade

Fazendo o percurso inverso regressamos ao Largo da Capela Nova, onde encontramos do lado direito a Perfumaria Mano. Fundada há trinta anos atrás, é a primeira casa de Vila Real a dedicar-se exclusivamente aos odores e à estética, uma aposta arriscada nesse tempo, uma vez que eram poucas as pessoas que podiam adquirir estes pequenos «luxos», vendidos anteriormente em drogarias. Nas últimas décadas o consumo de perfumes democratizou-se e também o cliente-tipo destas casas se alterou. Germânio Mesquita, proprietário da loja, explica que “mudou muita coisa em termos de negócio”. A partir dos anos 80 há um aumento do poder de compra e as pessoas já procuram este tipo de produtos, no entanto o cliente, antigamente fiel, “hoje pode comprar aqui, noutro dia vai ao Porto ou a outro lado”. Há, todavia, quem escolha o pequeno comércio há já trinta anos e, ainda hoje, clientes que se vão fidelizando. A explicação é, para Germânio Mesquita, simples: “o cliente gosta de ser tratado e acarinhado como não é noutros locais”. A perfumaria, à semelhança de outros pequenos comércios do centro histórico, já conheceu melhores dias. Segundo o proprietário o consumo quebrou, “desde há dez anos atrás, em 95 por cento”, o que se começou a sentir ainda antes do aparecimento das grandes superfícies. “O que há é falta de poder de compra”, diz. As condições do centro histórico não serão também as ideais, faltando, exemplifica o comerciante, “iluminação adequada ao centro histórico”, assim como parques de estacionamento. “Às nove horas [da noite] as luzes estão todas apagadas”, frisa.

Do lado esquerdo, de volta à Rua 31 de Janeiro, entramos na Barbearia Central, que “já existe há uns duzentos anos”. O proprietário da casa, Arlindo Cruz Botelho, explica atarefado que, apesar de se sentir uma quebra na receita nos últimos anos, “os clientes continuam fiéis à casa”. Na barbearia respira-se um misto de modernidade e antiguidade, mantendo a traça e o ambiente característicos destas casas de um passado recente. Os preços, apesar de mais «modernos» permanecem convidativos face ao das grandes superfícies, ficando o corte de barba e cabelo por uns «módicos» 7,5 euros.

Magia do tempo

Junto à barbearia temos a Relojoaria Salgueiro, que conta com “uns 130 ou 140″ anos de existência. Filinto Salgueiro, de 89 anos de idade, explica que sucedeu ao seu tio há 61 anos. Este, por sua vez, teria comandado o destino da casa durante mais de cinquenta, após suceder “a um senhor que tinha falecido, que era o dono da casa”. Pendurado numa das paredes está, a fazer lembrar tempos idos, um grande relógio de pêndulo que a acompanha desde a sua fundação e lhe confere alguma da sua aura centenária.

A vida foi em tempos mais fácil para a relojoaria, em que os relógios eram quase todos a corda e era necessário repará-los com alguma frequência. Essa foi uma necessidade que foi gradualmente desaparecendo com a generalização dos relógios a pilhas que, explicou o relojoeiro, “até são mais precisos”, uma vez que não estão sujeitos às variações de temperatura. “Antigamente tinha que se deixar ficar cá o relógio, desmontava-se e limpava-se todo”, lembrou. Ainda há, todavia, quem os use e os mande reparar na loja, “mas é muito raro”, uma vez que os poucos que ainda há à venda são de preço “proibitivo” e, mesmo as pessoas mais idosas, preferem hoje os relógios a pilhas, mais simples. A continuação da relojoaria que, apesar das dificuldades, “vai dando para viver”, dependerá no futuro da vontade do filho. Um local a eleger, para quem ainda prefere o conselho de quem há mais de meio século se dedica aos oráculos mecânicos do tempo às lojas modernas.

Atravessando o largo encontramos na Rua Direita a Casa António Luís, mercearia com 150 anos, número manifesto logo à entrada. Na casa, que mantém a traça original, é possível encontrar um pouco de tudo, desde cereal e bacalhau a temperos e bebidas. Exposta está uma antiga caixa registadora, coberta de ferrugem, a completar a paisagem da pequena loja tradicional. Sobre a história deste pequeno comércio, o proprietário recusou-se a falar, desgostoso com a crise e o abandono a que tem sido deixado o comércio tradicional. “Já não vale a pena, já perdemos o comboio”, lamentou.

Herança de saber

Um pouco mais à frente, na Livraria Branco, fundada em 1849, Alfredo Branco lembra com saudade os tempos em que esta era um local privilegiado de tertúlia, ponto de encontro dos amantes da leitura. “Há 40 anos as pessoas entravam aqui e fazia-se um tipo de tertúlia que hoje não se faz”. Usual era também pedir aconselhamento no momento de adquirir um novo livro, o que obrigava os livreiros a “estar muito mais dentro do conteúdo dos livros do que hoje”. “Hoje as pessoas entram numa livraria e, normalmente, já sabem o que querem”, confessou.

O proprietário, que já ali se encontra desde 1963, lamenta ainda o decréscimo do movimento na livraria e no centro da cidade, culpando o “conjunto de situações”, como a crise, o despovoamento do centro histórico ou a concorrência das grandes superfícies. Aponta o repovoamento deste como o primeiro passo a dar para combater a situação. “Se as casas estivessem habitáveis, depois vinha o resto”. A mudança dos hábitos da população também contribuiu para o progressivo abandono da zona histórica. “Enquanto que antigamente se vinha à noite à Pastelaria Gomes tomar café, hoje em dia as pessoas vão ao café do bairro, tudo mudou”.

Lembra as comemorações do centésimo quinquagésimo aniversário da casa, a 10 de Junho de 2000, uma vez que em 1999 estava em obras, como um dos seus momentos mais marcantes desde a fundação. Alfredo Branco não se preocupa com a sua sucessão, uma vez que tem já um filho a trabalhar consigo, frisando que esta é, no País, a livraria que há mais tempo se encontra na posse da mesma família, fundada pelo bisavô António Custódio da Silva.

Revisitar Vila Real

Ao chegar ao fim da rua passamos pelo Largo de Almeida Garret em direcção ao Largo de São Pedro. Seguimos pela Travessa Cândido dos Reis até chegar ao Jardim da Carreira, aonde, já ao fim da tarde, podemos beber os últimos raios de sol, que ganham cor nos pequenos jardins e se reflectem na água das fontes. Muito mais há para ver no centro de Vila Real e muitas mais histórias para ouvir, mas não seria possível contá-las (e contê-las) numa só reportagem. Fica o desafio, não só para quem nos visita, mas também para os vila-realenses, de (re)visitar, com um novo olhar, Vila Real.

*Publicado no Boletim Voz Do Marão de Maio

1 Resposta to “Vila Real (re)visitada”


  1. 1 D.
    Fevereiro 11, 2009 ás 9:26 am

    Olá
    Estou a desenvolver um trabalho para a disciplina deàrea de projecto do 12º ano cujo tema é um roteiro da cidade de vila real. (curso de artes visuais)
    Achei este artigo interessante e queria saber se tinha mais informação acerca do Jardim da Carreira.
    Agradeço uma resposta


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