21
Set
08

Sete Sóis Sete Luas

VI Simpósio Sete Sóis Sete Luas Em Santa Maria Da Feira

O indivíduo e o mundo em debate

O VI Simpósio Sete Sóis Sete Luas trouxe, no passado Sábado, a Santa Maria da Feira diversos actores da cena internacional, dos quais o mais célebre seja talvez Paul Rusesabagina, que salvou mais de 1200 pessoas durante o genocídio no Ruanda, retratado no filme Hotel Ruanda.

O humanitário Paul Rusesabagina, célebre por ter salvo mais de 1200 pessoas durante o genocídio de tutsis no Ruanda em 1994, o jornalista e filósofo francês Bernard-Henri Lévi, o escritor, poeta e activista contra o racismo marroquino Tahar Ben Jelloun e o psicanalista e professor catedrático português Carlos Amaral Dias foram os convidados presentes no VI Simpósio Sete Sóis Sete Luas – IDENTIDADES: diverCIDADE global moderado pelo jornalista Carlos Magno no passado Sábado no auditório da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira. O tema abordado pelo painel de oradores versou sobre temas como os direitos humanos, a ética, a identidade e o valor do indivíduo nas sociedades.

Escolha de uma vida

Em 1990 teve início a guerra entre hutus e tutsis, sendo que os segundos se deslocaram para as colinas ocidentais do país. Paul Rusesabagina mostrou ter bem presente a memória do dia 6 de Abril de 1994, em que o avião presidencial foi abatido. Encontrava-se em plena celebração familiar, com o seu cunhado e respectiva esposa. “Essa foi a última vez que vi o meu cunhado, pois eles foram massacrados”, disse. A morte do presidente terá sido o incidente que culminou com a barbárie que, nos três meses seguintes, levou à chacina de aproximadamente oitocentos mil ruandeses, sobretudo de etnia tutsi.

Foi nessa altura que Paul Resesabagina se viu perante a escolha que influenciou toda a sua vida desde então. “Estava numa situação complicada e decidi pelo melhor”, confessou. No dia em que os militares lhe bateram à porta, Paul tinha mais de duas dezenas de pessoas, entre familiares, amigos e vizinhos, em casa, que procuraram junto de uma pessoa com alguma influencia local uma protecção relativa. Quando os militares lhe pediram que os acompanhasse este disse que não poderia partir sem a sua família, referindo-se a todas as pessoas que se encontravam com ele. Paul chegou mesmo a ser confrontado com uma ordem para que assassinasse aqueles que com ele se encontravam, e teve que usar de um forte poder de negociação para chegar com vida e com toda a sua família ao Les Milles Colines. “Pela primeira vez na minha vida tive muito medo. Eu tinha enfrentado o mal e chegado a um consenso”, confessou. Este “consenso” terá passado pela troca das vidas que consigo se encontravam por dinheiro, revelou.

Diálogo

Rusesabagina considerou o diálogo como a solução para os problemas. “A melhor via é a do diálogo. Foi isso que procurei durante os três meses de genocídio”, disse. Durante os três meses em que foi perpetrada a matança de centenas de milhar de civis, Rusesabagina teve de gerir, por um lado os pouquíssimos recursos de que dispunha o hotel, considerando as mais de 1200 pessoas que ali haviam procurado refúgio, e por outro lado as “amizades” e contactos necessários à protecção do mesmo. Um dos seus grandes feitos terá sido convencer o general Bizimungu, tido como o principal responsável pelo genocídio, a proteger pessoalmente o hotel da milícia hutu Interahamwe, que, já no fim do período de três meses, se preparava para chacinar as pessoas do hotel. Sobre esse período, Paul Rusesabagina diz que “sabia que ia morrer” e que, portanto, “cada dia vivido a mais é um extra”.

Para promover o diálogo no Ruanda, Rusesabagina criou uma fundação com esse mesmo objectivo, com a ajuda do reverendo norte-americano Jesse Jackson.

Primazia da comunidade

Tahar Ben Jelloun expôs ao auditório da Biblioteca de Santa Maria da Feira o ser árabe e o Islão, e de que forma essa forma de estar, em que o indivíduo é completamente absorvido pela comunidade, influencia o desenvolvimento do povo, nomeadamente ao nível da literatura. “Não há romances porque na nossa sociedade não existe indivíduo, este está envolvido na família, no clã”, informou, esclarecendo que, por este mesmo facto, a literatura árabe nunca conheceu um franco desenvolvimento. Referiu a exemplo o Mil e Uma Noites, tido como obra maior da literatura árabe, mas que é no fundo um reunir de contos escritos ao longo de séculos e vindos de lugares como a China, a Índia ou a Pérsia.

Quanto ao papel da mulher nos países Islâmicos, afirmou que “uma criança com cinco anos já sabe, já aprendeu que a mulher é um perigo para a sociedade”, dados os seus encantos e subtileza com que pode levar a sua vontade avante. Reconheceu que a chegada do Islão no século VII veio por termo a diversas práticas bárbaras cometidas pelos árabes em relação às mulheres tal como enterrá-las vivas, mas que mesmo assim não lhes foi dada a total liberdade. Ben Jelloun referiu que no mundo muçulmano, ter uma ideia discordante à do clã, à do seu povo é uma “blasfémia”, é abrir uma fenda na sociedade. “No mundo muçulmano, dizer-se laico, é abrir uma fenda”, disse.

Perigo misturar religião e política

Ben Jelloun criticou relação, vivida nos países árabes, entre política e religião, considerando-a um obstáculo ao desenvolvimento. Afirmou mesmo que “enquanto não houver separação entre religião e política o mundo árabe não se vai desenvolver”. Apontou a volta da Turquia para a religião como um perigo para o país, que pode fazer retroceder uma nação que havia conquistado já o seu estatuto laico. “Esta forma de misturar religião, filosofia e política vai atrasar o mundo árabe”, disse. “Temos de evitar a confusão entre religião e política”, rematou.

Identidade

Bernard-Henri Lévy contrapôs a ideia de Ben Jelloun que afirmou a necessidade de valorização do indivíduo, em contraponto ao valor da sociedade. Afirmou que, “esse direito à blasfémia no Cristianismo é também uma invenção muito tardia”. O filósofo mostrou-se contrário à ideia de identidade como conjunto de características bem definidas, considerando que “nada é menos certo do que a noção de identidade”, e fez a apologia da identidade como parte integrante de um todo mais superior. “O comportamento ético é deixar-se invadir pelo conceito do rosto do outro”, disse.

Lévy considerou mesmo que uma noção exacerbada de identidade pode ser um perigo. “Na ordem política nada é mais perigoso do que a identidade. Aquilo que classificamos como fascismos estavam virados para a histeria da identidade”, afirmou. Referiu, a propósito, o genocídio do Ruanda como “uma vontade de criar uma identidade nacional”. “O racismo é a euforia identitária, assim como o fascismo é a histeria da identidade”, concluiu.


0 Respostas to “Sete Sóis Sete Luas”



  1. Sem comentários ainda

Deixar uma Resposta