Arquivo de Setembro 21st, 2008

21
Set
08

Sete Sóis Sete Luas II

ENTREVISTA A PAUL RUSESABAGINA

“Ninguém me veio pedir perdão”

Em entrevista a O PRIMEIRO DE JANEIRO no final do simpósio da Feira, Paul Rusesabagina conta como nunca ninguém lhe pediu perdão pelos familiares mortos no Ruanda. A partir da sua experiência pessoal, explica como África pode ser verdadeiramente livre e qual a responsabilidade do Ocidente e dos africanos. Explica que “não se pode marcar golo estando sentado na bancada do estádio”.

Como vê os acontecimentos de 1994, agora passados treze anos, e como vive com isso?

Imediatamente a seguir, em 1994, três meses depois do genocídio, eu estava muito amargurado, muito zangado com toda a gente, e não queria falar sobre isso. Isolei-me e passei a tratar dos meus negócios, mas apercebi-me que, ao manter isto só para mim, estava a frustrar-me a mim próprio, estava a torturar-me a mim próprio. Decidi então parar de me esconder e falar sobre isso, e percebi então que a melhor terapia na vida é falar. Quando falamos, partilhamos o nosso pensamento com os outros. Quando ao invés de partilhar o que pensamos com outros, guardamos tudo só para dentro, aí sofremos. Também percebi que, se queria que alguma coisa mudasse, eu teria de assumir um papel. Se quiser marcar um golo, suponhamos num jogo de futebol, se ficar somente a olhar na bancada nunca vou marcar um golo. Eu decidi então avançar para o campo e passar a jogar, foi assim que me tornei um humanitário.

Isto é uma pergunta ainda mais pessoal… foi capaz de perdoar os assassinos e as mortes do seu cunhado e das pessoas que lhe eram próximas? Continue a ler ‘Sete Sóis Sete Luas II’

21
Set
08

Sete Sóis Sete Luas

VI Simpósio Sete Sóis Sete Luas Em Santa Maria Da Feira

O indivíduo e o mundo em debate

O VI Simpósio Sete Sóis Sete Luas trouxe, no passado Sábado, a Santa Maria da Feira diversos actores da cena internacional, dos quais o mais célebre seja talvez Paul Rusesabagina, que salvou mais de 1200 pessoas durante o genocídio no Ruanda, retratado no filme Hotel Ruanda.

O humanitário Paul Rusesabagina, célebre por ter salvo mais de 1200 pessoas durante o genocídio de tutsis no Ruanda em 1994, o jornalista e filósofo francês Bernard-Henri Lévi, o escritor, poeta e activista contra o racismo marroquino Tahar Ben Jelloun e o psicanalista e professor catedrático português Carlos Amaral Dias foram os convidados presentes no VI Simpósio Sete Sóis Sete Luas – IDENTIDADES: diverCIDADE global moderado pelo jornalista Carlos Magno no passado Sábado no auditório da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira. O tema abordado pelo painel de oradores versou sobre temas como os direitos humanos, a ética, a identidade e o valor do indivíduo nas sociedades.

Escolha de uma vida

Em 1990 teve início a guerra entre hutus e tutsis, sendo que os segundos se deslocaram para as colinas ocidentais do país. Paul Rusesabagina mostrou ter bem presente a memória do dia 6 de Abril de 1994, em que o avião presidencial foi abatido. Encontrava-se em plena celebração familiar, com o seu cunhado e respectiva esposa. “Essa foi a última vez que vi o meu cunhado, pois eles foram massacrados”, disse. A morte do presidente terá sido o incidente que culminou com a barbárie que, nos três meses seguintes, levou à chacina de aproximadamente oitocentos mil ruandeses, sobretudo de etnia tutsi.

Foi nessa altura que Paul Resesabagina se viu perante a escolha que influenciou toda a sua vida desde então. “Estava numa situação complicada e decidi pelo melhor”, confessou. No dia em que os militares lhe bateram à porta, Paul tinha mais de duas dezenas de pessoas, entre familiares, amigos e vizinhos, em casa, que procuraram junto de uma pessoa com alguma influencia local uma protecção relativa. Quando os militares lhe pediram que os acompanhasse este disse que não poderia partir sem a sua família, referindo-se a todas as pessoas que se encontravam com ele. Paul chegou mesmo a ser confrontado com uma ordem para que assassinasse aqueles que com ele se encontravam, e teve que usar de um forte poder de negociação para chegar com vida e com toda a sua família ao Les Milles Colines. “Pela primeira vez na minha vida tive muito medo. Eu tinha enfrentado o mal e chegado a um consenso”, confessou. Este “consenso” terá passado pela troca das vidas que consigo se encontravam por dinheiro, revelou. Continue a ler ‘Sete Sóis Sete Luas’