A realização do fim de um sonho é a mais cruel das violências. Violentado, o coração nas mãos, as entranhas às avessas. E livre, livre para recomeçar a sonhar. O sonho começa transfigurado em pesadelo, inicio a caminhada. Quedo-me ainda a mirar a paisagem que se desfez, a ilusão que acabou, enquanto as lágrimas correm na alma. As emoções escorrem-me e não encontro as palavras para as segurar. Sacudo o espírito, o corpo imóvel não responde ao apelo da alma, que se esgota. Derradeiro esforço, quebro os grilhões, entranho-me no labirinto. As forças gastas, o caminhar pesado e pesaroso, mas continuo com a incerteza do oculto, a esperança da beleza além-trevas. No punho cerrado o pedacinho de terra de ilusão que não me permitirá esquecer e, por não o poder, regressar. E, por instantes, sou quase um ser inanimado, sem alma, sem espírito, sentimentos, sensações de prazer ou dor. Sem o fardo do pensar com que fui agraciado e amaldiçoado. Anestesiado, tranquilo, feliz.
Arquivo de Agosto, 2008
Sonho
Benfica – Porto
Durante o Benfica – Porto, no café:
Garoto de 4 ou 5 anos: “Palhaços”
(presumível) pai: “de quê”?
Garoto: “Palhaços do Porto de merda”
(sorriso orgulhoso do pai)
É sempre bom ver jovens pais interessados em proporcionar desde a mais tenra idade uma boa educação aos filhos…
NOTA: ironia, doce ironia…
Areia molhada nos pés. Avanço entre o infinito do Oceano e a areia branca. Estou só, absolutamente só, os outros há muito ficaram para trás. A consciência converte-se em emoção e, quanto mais forte, maior a vontade de avançar. Uma hora já passou e o sol queima-me a face. Já não vejo a pequena cidade que ficou por detrás das dunas. Escalo uma das mais altas e demoro-me a observar o Oceano, enquanto vou pensando no que perdi, que me é ainda tão querido e que, na verdade, nunca possuí. Uma saudade incontrolável do presente que deveria ser oprime-me o coração, a respiração inconstante. Bastava um pouco, um pouco só desse presente perdido para retomar a paz, mas o meu seguiu um caminho diferente, que se vai afastando cada vez mais, a crença no reencontro das duas linhas é cada vez mais débil… Regresso e desejo afastar as nuvens de sobre mim, que me seguem e só eu posso ver, enquanto o sol, insensível à minha dor, me castiga o corpo machucado de alma.
Pela luz dos olhos teus…
Olho os teus olhos de menina apaixonada, nos quais procurei já o meu reflexo. Hoje não procuro mais. Outros olhares, outras vivências se foram unindo aos meus, até à distância de hoje, que nos aproxima tanto. Compreendo o teu olhar com o coração. Não sei para quem, para o quê, sorriem os teus olhos. Sei que, enquanto sorriem, bondade genuína corre nas tuas veias e inunda o teu ser. Não sei se encontras resposta algures à magia desse sorriso, enquanto perdes o sono e sonhas assim mesmo, mas sei que, enquanto amares assim, pura e genuinamente, não sabendo tu tampouco o que amas, serás, ainda que dolorosamente, feliz. E a paz que, por vezes, fores deixando fugir de ti, será absorvida ao teu redor. E continuarás assim por algum tempo, mesmo que uma mágoa miudinha que ainda não compreendes te machuque, pois é possível viver um pouco sem amor, mas jamais sem amar intensamente.
Agosto Quente
São quase duas da manhã e um idiota qualquer lembrou-se de deitar ao ar meia dúzia de foguetes! Se os atirasse antes [CENSURADO]…
E com isto (quase) já nem tenho vontade para escrever acerca do disparate que tem sido parte da imprensa portuguesa nos últimos tempos, com o seu destaque desmedido dado aos crimes de sangue. Só a título de exemplo: dos 11 destaques e títulos da primeira página do JN de domingo, três são casos de polícia, um é acidente (que também é caso de polícia), um é acidente (só acidente), um atenta para “as dez melhores desculpas dos atletas olímpicos” e outro é sobre divórcios. Sobram quatro «não-deprimentes», dos quais dois títulos são sobre desporto (futebol, claro). Não deveria o jornalismo ser um exercício mais positivo? Da outrora profissão investida de nobre romantismo, temos hoje não mais do que sobras. Restos que vão alimentando seres necrófagos, que vivem do sangue e da lágrima alheia.
Sapos

Acabamos sempre por engolir um ou outro de vez em quando… E sabe mal.
Rádio
Cercado pelos sons. Leio, releio. Cumpro os mínimos do meu imposto critério de razoabilidade. Escrevo, leio, releio. Selecciono o RM. Corto, colo, limpo. Uma ferramenta torna o som mais perceptível. Não está bom. Refaço tudo de novo. O telemóvel toca. Não atendo. Tenho de fazer tudo de novo. É tique, mania. O trabalho de edição tem de ser mínimo. Se não minimamente aceitável para entrar no ar, há que tornar a ler, cortar, colar. Voltar à chamada da manhã não respondida. Desligado. Não vale a pena, dou o trabalho por terminado. Entrego-me à, ainda mais do que merecida, desejada pausa…
O Primeiro de Janeiro
Último editorial? Esperemos que não. Que seja, de facto, um “até para a semana”.












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