Arquivo de Junho, 2008

29
Jun
08

Sob as estrelas

Na varanda, quase deitado sob as estrelas, pela primeira vez em muito tempo – pela primeira vez de sempre, talvez – sinto um avassalador sentimento de impotência. Ao olhar aqueles pontos brancos, uma pressão no peito. Inquantificávelmente longínquos, ainda assim visíveis, quase palpáveis. Familiares. E, mesmo com toda a ciência, ser-me-á jamais possível alcançá-los, conhecê-los. Extinguir-nos-emos, provavelmente, como espécie antes disso.

Vou-me extinguir um dia sem ter dado por isso. Sem ter emitido qualquer luz que atravesse o espaço e o tempo. Aqueles pontos deixaram a sua marca. Que marca deixarei eu? Filhos? Amor? Um livro? A memória de um homem de sucesso? Nada disso! Vou passar, tudo o que é meu vai passar, antes que as rochas mudem a sua forma com o tempo…

Abandono a varanda com esta pressão no peito. Só a escrita – só esta escrita – torna o pensamento mais claro. Será? Talvez não… Aquele momento de revelação sob o céu perdeu-se. Fica a breve memória e a cinza. A cinza de uma emoção que não posso desconstruir. Muita cinza…

28
Jun
08

Conjugação existêncial

Procuro indicações para o que eu sou, questiono-me sobre de onde vim, para onde vou…

Descobri-me na minha própria língua…

O Indicativo do presente simplesmente me responde que “sou”! O Pretérito que é imperfeito, grita que eu “era”. Mas o sentimento de incompletude persegue-me e para que nunca me esqueça da minha condição humana “sou” agora, o que “era” enfim, o que já “fui”, um pretérito que tem a mania que é perfeito! Mas isto não me chega, procuro o mais-que-perfeito e “fora” eu feliz e não sabia? No futuro “serei” novamente!

No condicional eu “seria” feliz, se… A consciência diz-me para seguir o imperativo, tal como se fosse o último dia da minha vida (carpe diem): “sê”. O gerúndio puxa-me pelo braço e diz-me não sejas imediatista, vai “sendo”! P

Prefiro o infinitivo, que de uma forma pessoal ou impessoal obriga-me a “ser”.

20
Jun
08

A Selecção ficou pelo caminho…

É pena. Pelo menos acaba-se o orgasmo nacional.

18
Jun
08

O Estado de direito a saque

“Portugal nunca discute o Estado de direito; o único tópico de discussão é o Estado social. O Estado de direito pressupõe a existência de indivíduos. Sucede que os portugueses nunca são indivíduos, e são sempre camaradas de uma corporação qualquer. O português (seja ele juiz ou camionista) só existe através do seu grupo. O resultado desta cultura tribal está à vista de toda a gente: Portugal é dominado por uma confederação de alcateias que vive do saque ao Estado social e do desprezo que garante ao Estado de direito”. Por Henrique Raposo, no Expresso. Aqui.

Valores como a verdade e a razão perdem o sentido neste pequeno “rectângulo à beira mar plantado”. Prevalece a justiça do forte sobre aquele que não tem capacidade reivindicativa. Desde a Interrupção Voluntária da Gravidez (voluntarismo esse unilateral…), às gritantes desigualdades entre os “direitos” (adquiridos) da Função Pública e o sector privado. E, agora, a força das corporações. Dos camionistas, no caso. Atropelaram-se liberdades garantidas na Lei, mas não na coragem das nossas forças de justiça, segurança e governo. Vimos como um pequeno grupo pode paralisar todo um sector (e, em parte, o país), pela lei da força. Também posso fazer uma “paralisação” da minha actividade face aos aumentos do preço dos combustíveis, entre muitos outros. Podiam parar todos os colegas jornalistas. Resultado? Com tudo parado, não se faz notícia, o povo não reage, o Governo não quer saber. Os postos de abastecimento não secariam. E os nossos postos de trabalho seriam rapidamente ocupados por outros com (mais) vontade de trabalhar. Somos um país brando (e de brandos), para o bem e para o mal. Só cedemos pela força da coação bruta.

17
Jun
08

De Konsalik

Aproveitando os dias ociosos, antes de voltar à correria da definição de temas a tratar, contactos e entrevistas a fazer, aproveitei para colocar a leitura em dia. E, agora, a escrita. «Um Pecado Maior», de Heinz Konsalik. Como com outros livros deste autor, como «Peço a Pena de Morte» ou «Uma Família Respeitada», não me foi possível parar de ler até o terminar. De Konsalik não conheço nada, para além da sua escrita e de que é de nacionalidade alemã. É impossível não identificar ou ver nos seus personagens traços da minha própria personalidade. No vilão, em particular – vilão esse nem sempre definido por uma lógica de 2+2=4. Traços que incomodam, que me atiram do meu pequeno altar por mim construído. Mais do que meras falhas, revejo as minhas perversões de carácter, a maldade fria e implacável sempre latente no egoísmo. Egoísmo sempre presente, mais ou menos disciplinado pelas regras e pela conveniência.

Somos egoístas? Sou egoísta? Claro que sim. Posso julgar o seu contrário na corrente dos dias mas, no fundo, todas as cedências, todos os gestos altruístas têm a sua génese uma só coisa: o retorno. Eras de evolução só tornaram as nossas acções e os nossos próprios pensamentos conscientes mais requintados. Ao contrário dos impulsos, que a qualquer momento podem tomar o controle. E Konsalik é mestre no explorar desta fragilidade. Desconstrói, sem necessariamente construir de novo. Não neste último que li. Há uma moral subjacente, o triunfo do mais frágil sobre o predador. Diferente de, por exemplo, «Peço a Pena de Morte», em que todos são um pouco vilões – se não no momento, em potência. E vítimas. Em que, ao invés de uma «solução moral», se fortalece a dúvida. Um autor a (continuar a) descobrir.

“Decididamente, sou um grande sacana. É agora que essa verdade vem ao de cima com toda a nitidez. Mas já não há nada a fazer. Durante cinco anos andei a pensar que era uma pessoa decente… este momento bastou para que esses sessenta meses fossem varridos para sempre da minha vida”.

«Um Pecado Maior»

15
Jun
08

Sobre a «crise»

“Mudar o quê? Muita coisa. Mudarmos a nossa cultura de vida, essa cultura que se baseia no consumismo sem critério, que se alimenta de recursos que não se tem nem se gera. Mudarmos a cultura de desresponsabilidade individual, que sempre espera do Estado o pagamento da factura. A mudança começa em cada um de nós, a nível individual. Cada um tem que assumir a sua responsabilidade pela construção de um projecto de vida pessoal que tenha propósito e que beneficie a outros”.

Por João Saramago. Uma perspectiva realista. Uma visão diferente e optimista. Vale a pena ler.

06
Jun
08

Rumo ao Abismo

Crês-te em segurança, nessa caminhada à qual te lançaste. Vês-te por entre a sombra das árvores de largas avenidas enquanto acertas o ritmo dos teus passos, só que os teus olhos foram arrebatados por uma luz falsa e o que enxergas é uma ilusão. Na verdade, rodeiam-te arbustos negros alimentados pelas águas putrefactas das terras pantanosas aonde te encontras. A tua inocência não te permite acordar para a incoerência de quem te puxa em direcção ao abismo, nem sentir o odor da paisagem tenebrosa em que te imerges a passos largos. Tocas a mão que te procura resgatar mas essa luz falsa é demasiado forte e não há para ti nada mais do que o teu sonho. Acordarás talvez desse teu transe antes que te submetas por completo às areias movediças que pisas sem cuidado. Antes que percas a tua identidade…

06
Jun
08

“Os que vivem a vida num permanente e jactancioso triunfalismo barato, nunca poderiam ter escrito o salmo 42. “Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas em mim?”; “Direi a Deus, a minha Rocha: Por que te esqueceste de mim? Por que ando angustiado por causa da opressão do inimigo?”", em Canto do Jo.

No sofrimento está também o aperfeiçoamento contínuo. Quantas vezes disfarçamos a derrota com prepotentes e intimamente frágeis atitudes de segurança para tentarmos lidar com a frustração?