Os passos largos e a cabeça baixa denunciam o meu desconforto face ao chicote do vento e da chuva, enquanto me dirijo a pé para o restaurante, após intermináveis horas a realizar a mesma tarefa repetitiva e que se fundem numa sensação que me faz perder a noção do tempo. Enquanto janto só, sou inadvertidamente envolvido no núcleo e na conversa de pessoas com as quais não me cruzei por mais do que uma vez. As palavras simples atraiçoam a vontade de exprimir ideias e revoltas mal compreendidas. Esforço-me por buscar às poucas energias ainda não gastas a concentração necessária para lhes dedicar a atenção pedida. Em vão. A vontade é pouca e, desonestamente, recorro à minha carteira de clichés para lhes dar algumas respostas, enquanto imagino o quão bem me faria uma cama acabada de fazer. Apesar de saboroso, não me sabe bem o jantar. Pago, troco mais algumas palavras sem sentido e das quais já não me recordo e volto a enfrentar o vento e a chuva.
Entro no café, onde está já à minha espera uma doce companhia que me devolve alguma da energia com a qual acabo por enfrentar a madrugada. A empatia omite o tremer das forças, e poderia prolongar a troca de palavras e de silêncios, que a amizade se encarregou de fazer confortáveis, talvez cúmplices, pela noite adentro. Trocamos desabafos, receios e expectativas, enquanto vou, no meu íntimo, temendo poder vir a abdicar da sua presença quotidiana na qual tenho tanto prazer e que faz já parte da minha vida.
Procuro animar-te, talvez em vão, com a expectativa dos dias melhores que o futuro terá guardado. Custa-me o desânimo nos teus olhos, e dói-me ainda mais não o poder tomar de ti. Sofres com a realidade actual, que não se adequa à força dos teus ideais, talvez temas que a firmeza dos teus passos se deixe quebrar pelas frustrações do presente… Não desistas pelo caminho pois tens força para continuar, apesar das pedras que te forem magoando os pés. Aperfeiçoar-te-ás entretanto e, no fim, sairás ainda mais forte.










Comentários Recentes