13
Abr
08

Todas as cartas de amor são ridículas

Todas as cartas de amor são ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,

Ridículas. As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas. Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas. A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos

Van Gogh

Tarde: descanso do trabalho Van Gogh

Porque não voltamos ao tempo das nossas cartas de amor? Porque não conseguimos recuperar a inocência perdida, que nos inspirava a alma e libertava de vergonhas e pudores? Sentimos os olhares alheios sobre nós, o peso da expectativa e dos temores. O que era um deleite no passado, derramar emoções belas no papel, envergonhar-nos-ia hoje (vergonha que existe só para justificar a degenerescência dos nossos corações). Mais do que as palavras, tornámo-nos nós, ridículos.


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