Arquivo de Março, 2008

31
Mar
08

Origens

Levanto-me mais cedo do que gostaria, todavia convicto. A mudança de hora roubou-me sessenta preciosos minutos de sono, todavia o ar fresco, típico da aldeia, e o sol que bate na janela do meu quarto, dão-me o ânimo necessário para vencer os lençóis. Há algum tempo que não sentia este prazer no regresso às origens. Desde a tua partida que esta casa me parece demasiado vazia. Voltar aqui tornou-se num misto de prazer e de dor, ao rever as pessoas que amo, as saudades nos seus olhos, ao sentir a tua falta. Ao obrigar-me a não mencionar o teu nome, para não lhes trazer à mente a dolorosa memória. Contigo levaste alguns dos sorrisos e a alma desta casa, a sua cor foi-se apagando até um tépido cinzento. Mas hoje, depois de todos estes meses, a cor regressa com o sol tímido da Primavera. Regressam também os sorrisos, as rotinas e os rituais. E retomo também eu um ritual do qual sentia já falta. O de me levantar mais cedo do que o que seria necessário só pelo prazer da celebração dominical em família.

Chegado ao centro histórico de Viseu (possivelmente a mais bonita cidade de Portugal), tive ainda tempo para, depois do café com o meu pai, dar um breve passeio pela Sé e pelo requalificado mercado. Já na Primeira Igreja Baptista de Viseu, a típica celebração evangélica (que conheces tão bem) que alia o acto solene a uma confortável informalidade, incidiu no confronto pessoal com Deus. Muitas vezes me questionei se esse confronto existiria mesmo, se Ele seria real. Sei-o que sim. “Segue-me tu”, repetiu o jovem pastor incansavelmente, relembrando as palavras de Jesus a Pedro, naquele que foi para mim um momento de rededicação. Tu já deste o derradeiro passo, segui-lo-ás na eternidade. A mim, resta-me o vislumbre do que será. Tomo-te como exemplo de integridade e de bondade, sabendo que não me aproximo sequer de ti. No meu coração existem mágoas, vaidades vãs e ambições nem sempre legítimas, coisas que jamais revi nos teus olhos. Da pouca integridade que há em mim, espero poder passar pelas portas que me permitirão, um dia, te rever.

Regresso àquela que será, sempre, a tua casa. Partilho carinhos, vivências, sucessos e desânimos. Apesar de aquela mesa se ter tornado muito vazia sem ti, há alegria naqueles rostos. Há também a dureza das feições marcadas por vidas de sacrifício e arrependimentos, mas também de sentimentos de dever cumprido, para quem se encontra já no fim da carreira da vida. Despeço-me da aldeia, os sorrisos à porta e os olhos já tristes de saudade. Despeço-me da simplicidade agreste que me liberta de medos e frustrações. Despeço-me das pessoas com as quais posso deixar cair a máscara e ser verdadeiramente livre e genuíno. E levo comigo a saudade. Voltarei em breve.

29
Mar
08

As Regras da Sensatez

Nunca voltes ao lugar
Onde já foste feliz
Por muito que o coração diga
Não faças o que ele diz

Nunca mais voltes à casa
Onde ardeste de paixão
Só encontrarás erva rasa
Por entre as lajes do chão

Nada do que por lá vires
Será como no passado
Não queiras reacender
Um lume já apagado

Por grande a tentação
Que te crie a saudade
Não mates a recordação
Que lembra a felicidade

Nunca voltes ao lugar
Onde o arco-íris se pôs
Só encontrarás a cinza
Que dá na garganta nós

Carlos Tê / Rui Veloso

Porque insistimos em recuperar aquilo do qual havíamos já abdicado? O que partilhámos perdeu-se no tempo, guardemos as memórias. Também já procurei o regresso aos espaços aonde (julguei) deixara guardada a felicidade. Mas esse néctar residia em mim e lentamente deixei-o jorrar do peito até não restar nada mais do que o vazio. Hoje somos o vazio um do outro, uma soma de ausências e de mágoas que nos alimentam o fel. Não te contemplo uma última vez. Abandono-te e retomo noutro tempo, noutro lugar, a senda da felicidade.

29
Mar
08

Cansaço

Cansado, exausto de ser…

Anelo a simplicidade

A simplicidade da inexistência…

Neste momento não sei porque vivo

A minha razão talvez o saiba,

O coração não sente.

 

Alegria, despreocupação…

Máscaras de mim agora caídas.

Agora uma nova noite,

Amanhã um novo dia…

Novas máscaras…

29
Mar
08

Divagações de uma lista de compras

   Esta semana foi marcada por mais um NÃO!…

Calcei as minhas sapatilhas e decidida dirigi-me  ao hiper, para cumprir com a minha lista de compras! Estava eu atarefada, enquanto decidia entre o que realmente fazia parte da lista e do que achava interessante para comprar, quando fui abordada pela voz da consciência que dizia, o óbvio: – Dinheiro!!! Tentava puxar pela minha parte racional:-Afinal, será que realmente necessitas disto?! Nesse momento choveram pensamentos: técnicas de marketing, a minha impulsividade e o meu NÃO desta semana!

Parei! Olhei à minha volta… Observei as pessoas! Também costumam delegar a vossa lista de compras só para olhar a forma como os outros escolhem a fruta? Pois bem, eu já estava  na secção da fruta quando tive este insight… Na altura éramos eu e as restantes pessoas que estavam tão presas às suas vidas que nem se aperceberam que tinham alguém a contemplá-las fixamente, a absorver… Simplesmente a absorver cada gesto, olhar, tique, opção!

Dei por mim a abanar a cabeça… Fiquei feliz com o meu NÃO! Não quero ser formiga no carreiro.

28
Mar
08

Dor e Revelação

Diariamente temos espinhos na carne, momentos que nos perturbam mas que nos despertam para a realidade, nos levam a tomar decisões ou simplesmente nos obrigam a parar e a contemplar aquilo que deixáramos já de poder ver. Pode mesmo não haver qualquer factor externo. Acordamos com uma dor, uma nostalgia, uma saudade de algo que estará ainda para vir e enfrentamos o dia com uma força diferente, assente na fragilidade. E, de repente, do nada ou do mais banal dos objectos surge uma revelação que nos devolve o equilíbrio e a paz interior.

Hoje acordei com um espinho na carne. Não sei (ou não serei suficientemente íntegro para o apontar) qual o motivo. Uma acumulação de factores, talvez. Mas isso não importa. Acordei com essa dor, ou saudade do que ainda está por vir e que desconheço, e assim enfrentei o dia. Pormenores sobre o mesmo seriam acessórios desnecessários. A minha revelação, nascida mais de emoções do que da razão, nasceu precisamente da contemplação de um dos mais comuns dos objectos, mas, talvez, com uma essência tão complexa como a do ser humano.

Num cenário típico de fim de Inverno, numa tarde fria e cinzenta, uma árvore negra e despida de folhas balançava e ameaçava vergar, resignando-se à força do vento. Terá sido, talvez, a própria ausência de folhagem e a menor resistência oferecida ao vento que a segurou. Da sua nudez veio a sua força. Não tardará recuperará o verde e o esplendor, quando o sol da Primavera suceder às nuvens do Inverno. No Verão, o seu vigor será o alívio daqueles que se refugiarem à sua sombra e no Outono as suas folhas serão a fonte de vida de muitos outros organismos, assim como de si mesma. Outro Inverno se sucederá, e com ele a intempérie e o vento, mas a árvore, ainda mais forte e com as suas raízes ainda mais profundas, abdicará do seu verde e esplendor e resistirá até a uma próxima Primavera.

28
Mar
08

Como um espinho na carne

“Como um espinho na carne”. Foi Paulo (o apóstolo) quem primeiro usou esta expressão, referindo-se a algo que o atormentava, mas que o despertava para a fragilidade e a pequenez da sua condição humana e que, com esta revelação, fortaleceu ainda mais o seu espírito.

Este blogue pretenderá ser isso mesmo. Um grito em surdina da fragilidade, algo que magoa e que liberta. Que depois da dor traz a revelação. E que com a revelação traz a paz. Um espaço de reflexão e de devaneio, a forma mais digna de libertar o pensamento.