As autoridades vão apertar o cerco aos aceleras no IP4. Parece que, nos últimos meses, foram mesmo mais de 500 aqueles que ultrapassaram os 200km/h entre Vila Real e Bragança. Primeiro, tiram-nos a liberdade de fumar aonde nos der na real gana, e agora isto! Já não se pode ser idiota neste país? Shame on you!
Aceleras
Ruínas nossas
Recordo os momentos em que, por breves instantes, fantasiámos com um futuro diferente. Fantasiei. Deixaste-te, por momentos, imergir no meu sonho, mas nunca te entregaste verdadeiramente à nossa quimera… Hoje não sei mais de ti. Pergunto-me por onde andarás. Pergunto-me porque deixámos, lenta e gradualmente, apagar a memória desse tempo em que fomos crianças em corpos adultos. Prometemos reencontros, julgámos firmar laços, pactos velados inabaláveis. Mas tudo isso desmoronou como uma casa edificada sobre a areia. De repente, só os escombros do que foi, fragmentos incompletos, me levam de volta ao nosso lugar. Distraidamente, foste-te tornando numa imagem cada vez mais difusa, uma fotografia cujo lugar é cada vez mais incerto…
Antigamente, podíamos conversar até ao nascer do sol. As horas, os minutos, os segundos, não eram nada. O tempo tinha uma velocidade própria, só nossa. Mas, à distância de uma carta, de uma chamada, fomos banalizando as nossas palavras, deixámos de ter o que dizer um ao outro. Os nossos mundos separaram-se, abdicámos das palavras um do outro. Dos silêncios partilhados… Recordo-te com saudade e pergunto-me… Quem serás tu hoje? Também te recordarás de mim quando o sono teima em tardar?
debater a mediocridade
Quando a discussão parte de pressupostos diferentes – do gosto pelo debate à vontade de exibir uma prepotência cacarejante –, esta perde o seu sentido à partida. Digo que não, não discuto, pois nada tenho a aprender, a ganhar, a crescer contigo. A filosofia barata e estereotipada, que cospes com uma banalidade boçal, gera no meu ser não mais do que alguma incredulidade inicial, que se esfuma num resto de desprezo pela mediocridade que escondes por detrás dos cenários da fantasia que foste criando à tua volta. Esse apego ao teu dogma, em abjecto desprezo fingido pelos demais, não é mais do que uma ode à tua fragilidade, um sinal do teu medo pela revelação da tua, afinal de contas, vulgaridade…
Play… as ideias transportam-me para outro local… uma rua larga, está ligeiramente frio, o casaco sabe-me tão bem, abraça-me! Caminho livremente, uma força que vem dentro não me permite controlar o sorriso nos lábios e dizer mentalmente a cada pessoa que se cruza comigo: Sou livre!
Respeito-te mas não te pertenço!
Estranho este sentimento: propriedade! Apenas num espaço que não é meu, é que sinto que pertenço a outro e aí, o sentimento, existe e fico completa!
O sol envolve-me, continuo a caminhar a agradecer o facto de estar viva! Acredito que vou vencer, apesar de todas as fragilidades tenho-me a mim e ali sou a minha melhor amiga.
Fecho os olhos, toco nos edifícios, respiro fundo e concentro-me nos sons… Quero viver esta experiência com os sentidos da minha vida! O meu coração está compassado com o universo e finalmente somos um!
Sob as estrelas
Na varanda, quase deitado sob as estrelas, pela primeira vez em muito tempo – pela primeira vez de sempre, talvez – sinto um avassalador sentimento de impotência. Ao olhar aqueles pontos brancos, uma pressão no peito. Inquantificávelmente longínquos, ainda assim visíveis, quase palpáveis. Familiares. E, mesmo com toda a ciência, ser-me-á jamais possível alcançá-los, conhecê-los. Extinguir-nos-emos, provavelmente, como espécie antes disso.
Vou-me extinguir um dia sem ter dado por isso. Sem ter emitido qualquer luz que atravesse o espaço e o tempo. Aqueles pontos deixaram a sua marca. Que marca deixarei eu? Filhos? Amor? Um livro? A memória de um homem de sucesso? Nada disso! Vou passar, tudo o que é meu vai passar, antes que as rochas mudem a sua forma com o tempo…

Abandono a varanda com esta pressão no peito. Só a escrita – só esta escrita – torna o pensamento mais claro. Será? Talvez não… Aquele momento de revelação sob o céu perdeu-se. Fica a breve memória e a cinza. A cinza de uma emoção que não posso desconstruir. Muita cinza…
Conjugação existêncial
Procuro indicações para o que eu sou, questiono-me sobre de onde vim, para onde vou…
Descobri-me na minha própria língua…
O Indicativo do presente simplesmente me responde que “sou”! O Pretérito que é imperfeito, grita que eu “era”. Mas o sentimento de incompletude persegue-me e para que nunca me esqueça da minha condição humana “sou” agora, o que “era” enfim, o que já “fui”, um pretérito que tem a mania que é perfeito! Mas isto não me chega, procuro o mais-que-perfeito e “fora” eu feliz e não sabia? No futuro “serei” novamente!
No condicional eu “seria” feliz, se… A consciência diz-me para seguir o imperativo, tal como se fosse o último dia da minha vida (carpe diem): “sê”. O gerúndio puxa-me pelo braço e diz-me não sejas imediatista, vai “sendo”! P
Prefiro o infinitivo, que de uma forma pessoal ou impessoal obriga-me a “ser”.
É pena. Pelo menos acaba-se o orgasmo nacional.
“Portugal nunca discute o Estado de direito; o único tópico de discussão é o Estado social. O Estado de direito pressupõe a existência de indivíduos. Sucede que os portugueses nunca são indivíduos, e são sempre camaradas de uma corporação qualquer. O português (seja ele juiz ou camionista) só existe através do seu grupo. O resultado desta cultura tribal está à vista de toda a gente: Portugal é dominado por uma confederação de alcateias que vive do saque ao Estado social e do desprezo que garante ao Estado de direito”. Por Henrique Raposo, no Expresso. Aqui.
Valores como a verdade e a razão perdem o sentido neste pequeno “rectângulo à beira mar plantado”. Prevalece a justiça do forte sobre aquele que não tem capacidade reivindicativa. Desde a Interrupção Voluntária da Gravidez (voluntarismo esse unilateral…), às gritantes desigualdades entre os “direitos” (adquiridos) da Função Pública e o sector privado. E, agora, a força das corporações. Dos camionistas, no caso. Atropelaram-se liberdades garantidas na Lei, mas não na coragem das nossas forças de justiça, segurança e governo. Vimos como um pequeno grupo pode paralisar todo um sector (e, em parte, o país), pela lei da força. Também posso fazer uma “paralisação” da minha actividade face aos aumentos do preço dos combustíveis, entre muitos outros. Podiam parar todos os colegas jornalistas. Resultado? Com tudo parado, não se faz notícia, o povo não reage, o Governo não quer saber. Os postos de abastecimento não secariam. E os nossos postos de trabalho seriam rapidamente ocupados por outros com (mais) vontade de trabalhar. Somos um país brando (e de brandos), para o bem e para o mal. Só cedemos pela força da coação bruta.
De Konsalik
Aproveitando os dias ociosos, antes de voltar à correria da definição de temas a tratar, contactos e entrevistas a fazer, aproveitei para colocar a leitura em dia. E, agora, a escrita. «Um Pecado Maior», de Heinz Konsalik. Como com outros livros deste autor, como «Peço a Pena de Morte» ou «Uma Família Respeitada», não me foi possível parar de ler até o terminar. De Konsalik não conheço nada, para além da sua escrita e de que é de nacionalidade alemã. É impossível não identificar ou ver nos seus personagens traços da minha própria personalidade. No vilão, em particular – vilão esse nem sempre definido por uma lógica de 2+2=4. Traços que incomodam, que me atiram do meu pequeno altar por mim construído. Mais do que meras falhas, revejo as minhas perversões de carácter, a maldade fria e implacável sempre latente no egoísmo. Egoísmo sempre presente, mais ou menos disciplinado pelas regras e pela conveniência.
Somos egoístas? Sou egoísta? Claro que sim. Posso julgar o seu contrário na corrente dos dias mas, no fundo, todas as cedências, todos os gestos altruístas têm a sua génese uma só coisa: o retorno. Eras de evolução só tornaram as nossas acções e os nossos próprios pensamentos conscientes mais requintados. Ao contrário dos impulsos, que a qualquer momento podem tomar o controle. E Konsalik é mestre no explorar desta fragilidade. Desconstrói, sem necessariamente construir de novo. Não neste último que li. Há uma moral subjacente, o triunfo do mais frágil sobre o predador. Diferente de, por exemplo, «Peço a Pena de Morte», em que todos são um pouco vilões – se não no momento, em potência. E vítimas. Em que, ao invés de uma «solução moral», se fortalece a dúvida. Um autor a (continuar a) descobrir.

“Decididamente, sou um grande sacana. É agora que essa verdade vem ao de cima com toda a nitidez. Mas já não há nada a fazer. Durante cinco anos andei a pensar que era uma pessoa decente… este momento bastou para que esses sessenta meses fossem varridos para sempre da minha vida”.
«Um Pecado Maior»
Sobre a «crise»
“Mudar o quê? Muita coisa. Mudarmos a nossa cultura de vida, essa cultura que se baseia no consumismo sem critério, que se alimenta de recursos que não se tem nem se gera. Mudarmos a cultura de desresponsabilidade individual, que sempre espera do Estado o pagamento da factura. A mudança começa em cada um de nós, a nível individual. Cada um tem que assumir a sua responsabilidade pela construção de um projecto de vida pessoal que tenha propósito e que beneficie a outros”.
Por João Saramago. Uma perspectiva realista. Uma visão diferente e optimista. Vale a pena ler.
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